8 de janeiro, eu assisti pela televisão.
Era uma tarde de domingo, aparentemente como tantas outras, mas as telas das televisões logo deixaram claro que aquele 8 de janeiro entraria para a história. Em casa, diante da TV, acompanhava-se ao vivo uma marcha que parecia pacífica no início, mas que carregava um tom de inquietação. Era possível ver bandeiras, gritos e a energia exaltada de quem tinha um objetivo claro: protestar contra o governo recém-empossado.
As imagens mostravam milhares de pessoas convergindo para a Praça dos Três Poderes, em Brasília. Em meio à multidão, o repórter de uma emissora comentava sobre as motivações do ato: uma manifestação contra o resultado das eleições presidenciais, marcada por teorias de fraude e apelos inflamados por justiça.
Mas, de repente, o que era para ser um protesto se transformou em uma cena de caos.
As câmeras captaram o momento em que a multidão rompeu a barreira policial, empurrando com força os cordões de isolamento e atravessando os bloqueios. Os policiais, em número claramente inferior, recuavam diante da turba. Até então, a intenção real daquelas pessoas parecia indefinida, mas o destino dos manifestantes logo ficou claro. As imagens mostravam o grupo invadindo os prédios do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.
Dentro do Congresso, os manifestantes corriam pelos corredores, muitos vestindo camisetas com as cores da bandeira brasileira. Alguns carregavam objetos retirados das salas; outros quebravam móveis e destruíam obras de arte. A cada novo quadro exibido pela televisão, o sentimento de incredulidade crescia. A comentarista, ao vivo, alertava para a gravidade da situação: aquilo não era apenas vandalismo, era uma tentativa de ataque direto aos pilares da democracia.
No Planalto, a cena não era diferente. As câmeras de segurança internas, divulgadas em tempo real por alguns canais, mostravam grupos invadindo gabinetes, revirando documentos e destruindo equipamentos. A própria sala onde despachava o presidente da República foi alvo da fúria. Enquanto isso, a turba parecia alimentada pela própria desordem, como se o objetivo não fosse apenas invadir, mas espalhar um recado de insatisfação absoluta.
No STF, os atos de depredação eram ainda mais simbólicos. Salas inteiras destruídas, vidraças quebradas, processos judiciais atirados ao chão. Tudo parecia cuidadosamente escolhido para representar o desprezo pelos órgãos que ali funcionavam. A tensão crescia à medida que as câmeras mostravam cenas de confronto esporádico entre manifestantes e os reforços policiais que começavam a chegar.
Na tela da televisão, especialistas e jornalistas comentavam sem parar. As imagens eram sobrepostas com informações emergenciais: “Forças de segurança mobilizadas”, “Ministros da Justiça e Defesa reúne-se para tomar providências”, “Presidente emite pronunciamento”. A ordem era restabelecer o controle, mas o estrago já estava feito.
Durante horas, quem estava diante da TV assistia a um show de horrores. Relatos de prisões, manifestantes feridos e a ocupação de Brasília por agentes da Força Nacional. Aos poucos, a situação foi sendo contida, mas a sensação era de que algo muito maior havia sido rompido naquele dia: a própria estabilidade democrática.
Quando a noite caiu, as imagens mostravam os prédios públicos devastados, o chão da Praça dos Três Poderes tomado por destroços e o semblante atônito dos brasileiros que, assim como eu, haviam passado o dia colados às telas tentando compreender como tudo aquilo era possível.
Os comentaristas encerravam as transmissões com um tom grave. Era um dia para nunca ser esquecido, um marco de desafio às instituições democráticas que exigiria respostas firmes. Na televisão, os últimos quadros mostravam a limpeza começando e um povo dividido entre a revolta, a indignação e o medo do que estaria por vir.